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Percepções.

 Essa semana, na terapia, ganhei uma tarefa: estar presente. É incrível a minha capacidade de "desligar" e entrar em modo automático (que, carinhosamente, eu chamaria de modo de descanso de tela). Então, resolvi me determinar: LIA, PRESENTE! Cá estou eu. E tem sido... um pouco... horrível. Tudo começou na segunda-feira, 10h eu assumi esse bendito compromisso. Na segunda mesmo, já comecei a ensaiar um pouco dessa prática. Mas, como eu vinha do modo de descanso, não foi tão ruim. Percebi melhor as atividades do trabalho, fui pra academia e percebi que meu corpo estava bem travado (afinal, já faziam mais de dez dias sem exercício físico). Até aí, tudo ok. Segunda a noite comecei a ler um livro antes de dormir, achei a escrita meio fraca e já fiquei meio chateada de perceber minha própria autocrítica, mas pensei "vou ler, mata não". O problema começou na terça quando eu continuei percebendo. A primeira coisa, logo pela manhã, percebi o tédio. No passeio do Snoopy, ficou...

O que eu não quero ver, por não saber pra onde ir

Durante a semana fiquei pensando na história com a Cathê. Fiquei lembrando, magoada, das vezes que a rigidez religiosa dela me soou como um julgamento. Lembrando de episódios como uma vez que cheguei pra falar que tinha ido pra missa com Pedro e ela, sabendo que eu era messiânica, respondeu: "Que coisa boa, quem sabe tu fica só com a gente...". Dando a entender que eu deveria largar a messiânica e ficar indo somente na igreja católica. Comentários como esse me partiam o coração, me soava como um julgamento desnecessário. Após comentar sobre isso na terapia, fiquei refletindo: mas de que forma eu vejo isso? Por qual motivo, até hoje, lembro desses episódios com essa indignação silenciada? Depois de pensar um pouco, me veio: acho que eu não tolero conceber que ela me via como alguém que estava fazendo algo errado. Acho que eu não tolero errar. Naquele momento que ela comentou que eu deveria frequentar a católica e somente ela, é como se uma parte de mim quisesse obedecer, pra a...

A vida é muito pro pouco de mim.

Querido  Conhecido diário,  É. Parece que nos encontramos novamente. Eu me sinto fugindo de você... E levando páginas em branco na cara até ceder e vir aqui novamente. Imagine o incômodo que é andar por aí com folhas... e folhas... e folhas... batendo no seu rosto por meio de um vento mais intenso do que deveria ser. Incomodou, cá estou eu. Eu odeio a palavra querido. Depois vemos um nome melhor pra você. Mas vamos à que viemos. Desde setembro que eu não sinto gosto e cheiros como eu deveria, condição essa que a médica carinhosamente apelidou de cacosmia e parosmia. O porque, o desde e até mesmo o até quando não tem me interessado muito. Eu tenho ficado parada no COMO (eu JURO que não foi ironia, apenas um acidente feliz).  Como eu vou viver com isso? Como eu faço pra continuar? Como é possível continuar a conviver em sociedade assim? Como foi que isso aconteceu? Como eu vou conseguir sair desse humor? Meu lado pessimista já entende esse novo cenário como realidade. Veja ...

Eu me sinto só.

É mais um sentimento do que uma realidade. Parece uma ideia tão sólida dentro de mim, que nenhuma quantidade de reestruturação cognitiva conseguirá fazer com que ela perca as forças. Mesmo que a vida fosse uma guerra épica e eu fosse o líder, acho que mesmo com todo um exército eu ainda me sentiria só. E o prato de solidão é um que eu como com todos os temperos aos quais ele dá direito: incompreendida, dramática, defeituosa - e mais alguns temperos apetitosos que o prato de solidão me traz. Eu tenho me sentido tão confusa que nem esse texto eu sei mais se faz sentido e ele não tem nem sequer dez meras linhas. Qualquer coisa acima de duas linhas me parece caótica e sem sentido. Eu tenho vivido uma grande montanha russa mesmo. Eu tenho quase certeza que eu deveria pedir socorro, mas o corpo de bombeiros viria e eu não iria saber o que dizer a eles. E eu consigo ver a cena se formando diante dos meus olhos, eu pediria desculpas por ter ligado e pela imensa inconveniência. E talvez eu liga...

Não, eu não posso pedir ajuda.

Que loucos são vocês?  Há críticas: “É muito auto-suficiente, não quer saber de ninguém”. Até certo ponto, eu entendo que possa parecer assim, mas me debruço no conforto de saber que não é a realidade. Durante a vida inteira foi essa inconsistência.  “Precise da gente” “Mas, por favor, não precise” De um lado, as queixas fundadas de estar sobrecarregada de mamãe. Do outro, a impaciência eterna de ser incomodado do papai. E no meio ou ali por perto: eu. Não acho que eu pudesse (quando pequena) mudar a realidade da mamãe, e quando me vi adulta não acho que eu quis. Não fui eu quem escolheu essas cruzes, de algum modo, não me pareceu justo eu carregar. Até porque eu as carregaria de um modo muito diferente. E creio que nada mais justo: afinal, eu sou outra pessoa. Papai sempre foi assim. Desse jeitinho dele de ser. Sobrecarregado com as próprias e eternas preocupações e tendo dificuldades de ver além. Se queixa de não receber, mas não tem tempo, energia e condições de dar nada. Q...

Shmuel.

Sinto muito por não ter tido tempo de colocar você como prioridade. Sinto muito por todas as coisas que eu disse que ia fazer e não fiz por ter deixado outras coisas passarem na frente, como a sua festinha de dez anos. O que custava ter encomendado aquele bolinho de cachorro pra você? A vida é tão maluca, Shmuel, o tempo passa como se tivesse um acelerador de partículas e quando você vê: passaram 12 anos. Você chegou numa fase que eu tinha pouca ou nenhuma autonomia e foi crescendo comigo. Queria poder te perguntar se ter comprado a Mel realmente foi um erro, me pareceu que sim pelo fato de você ter mudado muito. Mas como todo cachorro, você foi resiliente com isso e aprendeu a amar a bichinha, espero que a companhia dela tenha sido pra melhor, pelo menos no geral. Sinto muito que a gente não tenha ido mais vezes pra praia ou não ter trazido você aqui pra casa. Eu sei que sempre existiam motivos e mais motivos, mas quanta falta fará não poder mais fazer nenhuma dessas coisas. Te promet...

Sem asas ઈĭઉ

Eu me sinto presa! Não no sentido de não poder ir e vir, muito menos no sentido de não poder fazer coisas. Mas em referência à falta de possibilidades. O mundo têm cortado as minhas asas. A pandemia me parou das possibilidades de viajar, as aulas me param a possibilidade de gerenciar melhor a clínica e as burocracias me cortam a possibilidade de estudar. Vejo-me com frequência trocando a leitura de um capítulo por uma tarde organizando papéis (que nem são exatamente meus) e, nesse passo a passo, as demandas vão me atropelando. Estou prontinha pra sair do casulo, mas altamente amarrada pelas circunstâncias e sem entender qual parte é casulo e quais são asas. Fico pensando que é hora de me despir, de deixar o casulo pra trás... Mas os infortúnios são mergulhados em bons momentos e aprendizados. Quanto mais eu olho, mais me parece que não há um sem o outro. Mais é confuso entender qual parte(s) eu quero levar e ainda preciso nesse crescimento. As supervisões são casulo ou asas? As aulas s...