Percepções.

 Essa semana, na terapia, ganhei uma tarefa: estar presente. É incrível a minha capacidade de "desligar" e entrar em modo automático (que, carinhosamente, eu chamaria de modo de descanso de tela). Então, resolvi me determinar: LIA, PRESENTE! Cá estou eu.

E tem sido... um pouco... horrível.

Tudo começou na segunda-feira, 10h eu assumi esse bendito compromisso. Na segunda mesmo, já comecei a ensaiar um pouco dessa prática. Mas, como eu vinha do modo de descanso, não foi tão ruim. Percebi melhor as atividades do trabalho, fui pra academia e percebi que meu corpo estava bem travado (afinal, já faziam mais de dez dias sem exercício físico). Até aí, tudo ok. Segunda a noite comecei a ler um livro antes de dormir, achei a escrita meio fraca e já fiquei meio chateada de perceber minha própria autocrítica, mas pensei "vou ler, mata não".

O problema começou na terça quando eu continuei percebendo. A primeira coisa, logo pela manhã, percebi o tédio. No passeio do Snoopy, ficou claro o quanto Fortaleza me incomoda. É quente, não é tão bonito (e olha que eu moro num dos lugares mais bonitos da cidade), é um pouco sujo, um pouco ruim... Enquanto eu percebia, eu só queria fechar os olhos e talvez me mudar pra outro lugar. Ia percebendo também que meu corpo, após um exercício físico, fica calejado - nossa resistência física ainda não é essas coisas, é um corpo meio frágil e isso me deixou meio frustrada. Mas a felicidade do Snoopy embelezou um pouco as coisas. 

Segui o dia percebendo... Percebendo uma e outra comida que não me apeteciam tanto, percebendo que me sinto insuficiente sempre que olho pro meu trabalho: poucos seguidores, vagas abertas para terapia, doutorado e especialização incompleto, cursos em aberto. Fico me desviando dessas flechas. Precisei mexer na poupança e isso ativou forte a minha incapacidade: que derrota! Mas segui sendo firme: LIA, PRESENTE! Cá estou eu, enfrentando. Até agora, achei cansativo.

Segui o dia trabalhando e percebi que fiz menos pausas, parece que perceber as flechas de ontem me ativou um pouco na regra do "preciso fazer mais". Terminei o dia mais cansada, o corpo mais dolorido, a cabeça com sensação de esgotada. Determinada, fiz 30 minutos de exercício em casa (que foram imensamente desafiadores, cada movimento que eu nem te conto!) e limpei a cozinha. Ao limpar a cozinha, mais uma vez, me dei conta do imenso tédio. Até coloquei um vídeo pra ver enquanto lavava a louça - como eu detesto sentir tédio.

Na hora de deitar, estava preocupada demais com as contas, dolorida demais no corpo e a sensação geral era de exaustão. Não quis saber de ler o livro e tive um pouco de insônia.

Acordei hoje, quarta, ainda: LIA, PRESENTE! Já me apressei de andar com o Snoopy, percebendo bem que as pernas ficaram do-lo-ri-das [diacho de corpo réi frágil pra me dar ódio] e que realmente não sei se quero presença nesse passeio para além de me concentrar no próprio Snoopy que é a única graça no meio das desgraças. Quando voltei, já vim me sentar e preencher tabelas e tabelas de financeiro pra VER tudo que eu não QUERO VER e percebi vários padrões:

- Eu gasto mais com o Marcos do que comigo

- Eu me sinto MUITO incapaz de dar a ele a vida que ele quer e algumas palavras dele ficam ressoando na minha cabeça como fantasmas ("Não sei os 3 mil vai dar...", "Eu vou tentar me organizar com esse valor [dando a entender que é difícil]").

- Eu me sinto com raiva de ter que me privar tanto sendo que eu trabalho tanto

- Eu me sinto com raiva de estar sempre apagando incêndios

- Eu preciso ter um valor de salário livre pra mim todo mês, mas sinto vergonha de determinar isso (eu tinha escrito pedir, mas EM TESE, quem ganha o dinheiro sou eu, então seria pedir pra mim... sei lá)

Sigo odiando perceber todas essas coisas, estar presente é um saco e agora eu tô morrendo de ansiedade por precisar conversar com o Marcos sobre essas coisas. A vontade de desligar é grande, Deus queira que o compromisso de estar presente seja maior. Dentro de mim, brilha uma ponta de esperança. Talvez a saída seja continuar em presença. Mas, JESUS AMADO, como dói.

Ps: Sim, eu sei que não são "grandes porradas", mas eu sou uma mocinha sensível, qualquer pancada é pancada. Abraços.


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