A vida é muito pro pouco de mim.

Querido Conhecido diário, 


É. Parece que nos encontramos novamente. Eu me sinto fugindo de você... E levando páginas em branco na cara até ceder e vir aqui novamente. Imagine o incômodo que é andar por aí com folhas... e folhas... e folhas... batendo no seu rosto por meio de um vento mais intenso do que deveria ser.

Incomodou, cá estou eu.

Eu odeio a palavra querido. Depois vemos um nome melhor pra você. Mas vamos à que viemos.

Desde setembro que eu não sinto gosto e cheiros como eu deveria, condição essa que a médica carinhosamente apelidou de cacosmia e parosmia. O porque, o desde e até mesmo o até quando não tem me interessado muito. Eu tenho ficado parada no COMO (eu JURO que não foi ironia, apenas um acidente feliz). 

Como eu vou viver com isso?

Como eu faço pra continuar?

Como é possível continuar a conviver em sociedade assim?

Como foi que isso aconteceu?

Como eu vou conseguir sair desse humor?

Meu lado pessimista já entende esse novo cenário como realidade. Veja bem: estamos em janeiro. Já fazem 5 mesversários que a dupla de gêmeas está aqui. Do mesmo jeito que aos cinco meses as mães já acreditam que a gestação será forte e saudável, penso o mesmo das gêmeas. Não me entenda mal: eu ESPERO estar errada. Mas não quero apostar fortemente em nada disso. Acho que vou te chamar de conhecido diário, em homenagem à tudo que me era conhecido e familiar - como você é - apesar das demais coisas não serem mais.

Eu queria ser um guerreiro forte que sobe na montanha pra bravamente lutar contra isso. Mas eu sou eu. E eu já me rendi. Estou buscando fazer outras coisas. Se isso é o melhor...? Não sei. Se vou conseguir...? Vamos ver. Vamos ver também até onde vai esse escudo da comida. Porque se em terra de cego quem tem um olho é rei... a comida tem o potencial de ser um grande rei na terra de cegos que são os meus vícios. A pessoa não toma café, esquece do açúcar com tranquilidade, não gosta de refrigerante, não bebe, não fuma... Vai que eu ainda tenho porta pra abrir. Talvez meu vício fosse comida e talvez eu realmente precisasse... Rever.

Eu nem sei se foi disso que eu vim falar aqui. Mas é pacífico não ter corretor, prazo ou sequer coerência a cumprir. "E se eu errei, diga que foi licença poética".

Eu não tenho nenhuma respostas pros "COMO" dali de cima. No último, eu posso até expandir um pouco e especificar o tipo de humor: tristeza - mas não tenho muito a acrescentar para além disso. Muitas pessoas ficam perguntando "é gosto de que? como é isso?" e, por ser inexplicável, tenho vontade de mandar-lhes uma metáfora no meio da cara e dizer que é como se você pegasse a palavra horrível com todos seus significados e mergulhasse dentro. Mas é melhor dar a elas a ilusão de que entendem ao tentar explicar com... "lembra um gosto remoto de fumaça". Elas não entendem do mesmo jeito, mas ficam satisfeitas. E todos agem com esperança - "Vai passar" e aí a vontade é de meter a mão no meio da cara mesmo. Algumas coisas não passam, só diga que sente muito. Adultos parece que demoram muito pra aprender. 

E no meio disso tudo, eu fico: "Será que eu quero conviver com eles?".

Eu ando meio sem forças. Me vejo circundando a toca do coelho... caio....? não caio...?

Uma outra coisa absolutamente insuportável... É ter que ficar parando as frases no meio e esquecendo porque a primeira coisa que se despede de mim é a memória e a boa organização quando eu fico assim querendo deprimir. Talvez esse seja um sinal que por hoje chega. MAS... Não se preocupe, algo me diz que virei com maior frequência.

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