Eu me sinto só.

É mais um sentimento do que uma realidade. Parece uma ideia tão sólida dentro de mim, que nenhuma quantidade de reestruturação cognitiva conseguirá fazer com que ela perca as forças. Mesmo que a vida fosse uma guerra épica e eu fosse o líder, acho que mesmo com todo um exército eu ainda me sentiria só. E o prato de solidão é um que eu como com todos os temperos aos quais ele dá direito: incompreendida, dramática, defeituosa - e mais alguns temperos apetitosos que o prato de solidão me traz. Eu tenho me sentido tão confusa que nem esse texto eu sei mais se faz sentido e ele não tem nem sequer dez meras linhas. Qualquer coisa acima de duas linhas me parece caótica e sem sentido. Eu tenho vivido uma grande montanha russa mesmo. Eu tenho quase certeza que eu deveria pedir socorro, mas o corpo de bombeiros viria e eu não iria saber o que dizer a eles. E eu consigo ver a cena se formando diante dos meus olhos, eu pediria desculpas por ter ligado e pela imensa inconveniência. E talvez eu ligasse de novo, desesperada, no dia seguinte. De alguma forma, por ter clareza do final da história, eu me impeço de ligar. 

Será que isso significa que eu preciso de algo pelo qual eu não sei pedir?

Será que isso significa que eu não sei o que eu preciso?

O que será que isso significa?

Viver dentro de mim tem sido um grande desafio. Me sinto em casa e me sinto presa. A famosa claustrofobia de morar em mim. Não tenho certeza, mas me arrisco a dizer que já escrevi sobre ela outras vezes. E faço questão de dizer que a falta de clareza que assombra esse texto também é o que me atormenta. Talvez tenha chegado a época em que é imprescindível que eu comece a beber. 

Será que uma garrafa de vinho tornaria as coisas menos confusas?

Ou será que só tornaria tudo ainda pior?

Além de estar só, me parece também que eu vou explodir. O significado de tudo me escapa pelos dedos. Eu entro em cada sessão me perguntando porque estou ali e me faltam perguntas pra entender aquele paciente. O silêncio desconfortável parece gritar que é porque eu não me importo, e nem o paciente, estamos os dois deprimidos. Esse último parágrafo eu sei explicar: foi o relato do desconforto da sessão de sexta passada com uma paciente deprimida.

Será que essas palavras já são o suficiente pra esse texto?

É, talvez. Mas pelo risco de pecar pela falta, eu prefiro sempre pecar pelo excesso. Pelo simples motivo de excesso combinar muito mais comigo do que falta. Então deixo esse último parágrafo pra completar um texto em aberto. Deixo ele aqui com o profundo suspiro de que não sei como vou sobreviver ao dia de amanhã. Eu olho a lista que tem feita aqui do meu lado e prendo a respiração, me falta ar até pra elaborar a dor de vê-la. E eu nem sequer sei explicar meus motivos. Eu não odeio o que eu faço (eu acho). Mas algo dentro de mim se revira com a ideia de acordar, ir pra academia, comprar comida e dar fim nessa lista de preparar aula, evoluir sessões e por aí vamos. Tenho a sensação que meti os pés pelas mãos com o excesso de compras da reforma. E o único jeito de não afundar por completo é continuar nadando mesmo aos pedaços.

"You say it best when you say nothing at all". Fim.

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