A libélula no âmbar

Vou começar essa nova estrada com novo nome e endereço. Eis aqui uma carta para a minha psicóloga.

Como eu tenho me sentido? Bom... Vejamos... Sentimentos presos, asas que não voam. Uma libélula no âmbar. Uma libélula congelada em âmbar que foi cortada ao meio por uma lâmina de aço quente. Uma libélula em pedaços, aos frangalhos, impossível de se colar inteira de volta. Nem o âmbar que a envolvia conseguiu protegê-la. 

Vou começar te contando uma história. Em 2008, aos 13 anos eu parei de escrever nos meus diários, pela inviabilidade de continuar acumulando aquelas pilhas imensas de papel. Eram palavras demais pra sair e o pouco de consciência ecológica que eu tinha me sussurrava que não era de bom tom gastar tanta tinta e papel. Criei então o meu primeiro blog chamado "Eu não sou uma princesa" e minhas palavras, lágrimas, gritos, sorrisos e amores ganharam um novo lar. Um lar que discorria sobre todos os meus defeitos que me jogavam pra longe da perfeição que eu me exigia. Eu não era uma princesa, mas no fundo eu queria ser. Eu queria ser impecável, delicada, bonita e rica também... já que estamos sendo sinceros aqui, vamos colocar logo todos os adjetivos na mesa. Pois bem, o tempo foi passando e eu fui jogando, em cada nova postagem, um mar de emoções que eu não tinha outro local pra colocar. Eu sempre achei que tinha que lidar com tudo aquilo sozinha. Que a aceitação nunca iria vir. Que meu destino era trabalhar e ter um bom cachorro pra dividir o chocolate quente. Eu queria ser mais poética e te dizer que eu iria sentar num sofá bebendo vinho ou whisky e fumando um cigarro... mas sejamos sinceros: a bebida me deixa enjoada, eu não consigo passar da segunda taça de vinho e não sei em qual cenário do planeta eu teria paciência pra fumar um cigarro. Eu provavelmente só seria gordinha com meus chocolates e pijama... E nem poética eu conseguia ser. Ainda que eu me ache um ser humano fantástico por me entender como alguém interessante, inteligente e dotada de uma capacidade incrível de amar... eu também me acho um ser humano terrível para os outros. A essência do interior é bonito, mas a casca é podre. É gorda, de formatos feios, de paladar infantil, de comer emocional, desorganizada, grosseira, indisciplinada, de opiniões fortes, de palavras impulsivas, de personalidade "forte demais", insuficiente... é a casca de alguém que sempre buscou a perfeição e nunca conseguiu nem dar um abraço nela. É a casca de alguém cansada, que de alguma forma muito louca, está cansada desde os 10 anos. Mal tinha dado tempo de viver... e eu já estava exausta de sustentar essa essência dentro dessa casca. 

Em 2012 eu fechei esse blog. Deixei os textos arquivados. E mudei para o "interminavelmente inescrito", cujo o título era "Estações - elas podem mudar". Elas realmente tinham mudado. Eu entrei na faculdade e as estações mudaram por completo. A lâmina da vida ficou mais dura. Eu deixei de lutar contra uma espada de aço e passei a batalhar contra canhões. Já comecei a jornada com uma grande rasteira. A casca podre tinha que servir. Coloquei camadas protetoras (mais ainda) e segui. Eu não ia ser aceita mesmo e ia ter que ficar tudo bem. As poucas pessoas que aceitassem algum pedaço de mim já servia, já estava de bom grado. Ia ter que dar. O foco era outro. Razão acima da emoção. E assim saíram de mim textos e textos que eu mal sei do que falavam. O segundo blog foi todo racional, cognitivo, descritivo. Eu buscava em mim a inspiração, o exagero e as metáforas... parecia um exército dizimado na guerra. Nenhum deles estava vivo. Era como se eu estivesse sem vocabulário, apática ou robótica. E esse é o melhor que eu consigo fazer ao tentar explicar. 

De 2018 pra cá eu quase não escrevia mais. Meu exército dizimado ia ficando esquecido. Guerreiros antigos, com nomes em placas empoeiradas em algum museu. E eu ia seguindo a vida. Dia após dia, um pé na frente do outro, um bolo por vez. Me revirando, me remexendo dentro de um rio de apatia. Dando braçadas desesperadas pra cravar meu caminho pra fora de um desamparado desaprendido. E sempre que eu chegava na beira da piscina... Era vazio. Eu não sabia pra onde ir. Eu não entendia nada. Eu boiava no racional já há anos. E eu ainda conseguia o impropério de não entender nada. O impacto que teve em mim a caça das bruxas após a aula de fisiologia no segundo semestre da faculdade, a crise de ansiedade que eu tive na especialização, todas as vezes que eu falei na terapia que eu precisava reencontrar aquela menina do primeiro blog, a minha dificuldade de lidar com os sentimentos que eu não sabia mais ter. A minha saudade dos sentimentos que eu precisa reaver. Eu sempre soube que tudo isso era importante, mas eu realmente não entendia nada. Eram só fatos.

Por isso, entre os fatos: afetos. Agora esse é o nome do novo blog. Criado em 2021. E, de forma ainda mais interessante, o nome que me veio foi "Entre fatos e afetos", creio eu que por uma relutância minha em mantê-los afastados. Mas um não faz sentido sem o outro. E o blog me avisou, dizendo "esse usuário não está disponível". E ele tinha razão. Não é viável, pois a liga entre os fatos é o afeto. Não são duas coisas, mas uma só. Entre fatos: (dois pontos!) afetos. Pois é isso que há entre eles. 

Eu finalmente entendi que entre meus fatos importantes e toda a minha realidade existem afetos. E esses afetos são a grande questão. São a questão que eu deixei intocada na gaveta quando fechei as portas em 2012. Em algum momento eu creio que eu entendi que a perfeição era não ser criticada, que a perfeição era não dar margem pra uma série de coisas horríveis acontecerem. E não dar margem é manter distância das perigosas pessoas, não dar margem era me afastar. Não dar margem era viver me afogando pra não precisar estar na margem com as pessoas. De algum modo, morrer afogada na minha própria água doía menos do que levar os copos de água na cara que os outros poderiam jogar. Já fazia muito tempo que não me passava pela cabeça a probabilidade real de alguém me oferecer uma toalha e cuidar de mim. Agora eu começo a ter esperanças reais disso acontecer. Até 2012 eu tinha esperanças de sonho, após 2012 eu já nem sequer me permitia sonhar. Mas a realidade foi boa comigo, me deu um amor com o qual eu sempre sonhei e me rodeou de pessoas que me deram coragem pra chegar até a borda de novo. 

Eu ainda não saí do rio. Os sentimentos que me tomam ainda são uma água estranha. Mas o rio de apatia agora tem ondas. Ondas rebeldes que me obrigam a segurar na beira pra não sair bolando cascata abaixo. Ondas que me lembram que eu estou viva. Ondas terríveis, que eu as odeio. Ondas incríveis que me dão fôlego. Nessas últimas semanas, eu estive me sentindo completamente perdida, como uma libélula congelada em âmbar que foi cortada ao meio por uma lâmina de aço quente. Todo o âmbar de apatia que eu coloquei ao meu redor não havia sido o suficiente pra me proteger. De repente, eu me vi 4 vezes na mesma semana sendo obrigada a me sentir aquela menina que não era uma princesa, toda errada, com a casca podre em evidência e sem perspectiva de alguém lembrar da essência (se é que é possível as pessoas lembrarem daquilo que nunca viram). Mas eu não sabia mais ser ela e todo um exército dizimado vinha pra me atormentar. As ondas do rio de apatia começavam e ficar lá sem me afogar já não era mais tão simples. Um lado de mim estava feliz por estar partido ao meio (pasme!), o outro lado estava completamente em pânico. 

Hoje eu vi um vídeo da Eliane e ela disse assim: existem altos e baixos, quando estamos no baixo, naquela laminha... é bom, tem algo de envolvente ali. A gente fica um tempo. Quando a gente consegue sair, de alguma forma e vai pro alto... chegamos num local de potencialidades. Eu me sinto numa montanha-russa com dias cheios de potencialidades e outros que são laminha. E eu só queria saber se o normal é isso. Ou se tem algo urgente que eu precise ajeitar pra sair dessa montanha-russa e ficar somente no trote esvoaçante de um belo cavalo.

Fim da carta. E início do começo de uma nova jornada.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Percepções.

Sem asas ઈĭઉ

A vida é muito pro pouco de mim.